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Dia do Psiquiatra: Como era viver em um mundo sem Psiquiatria?

Foto do escritor: ABP
ABP
13 de ago.
3 min de leitura

Durante séculos, ter uma doença mental não era encarado como algo tratável. Quem hoje seria reconhecido como paciente, antes, era frequentemente privado de liberdade, excluído da sociedade ou abandonado à própria sorte.


Em uma época antes do surgimento da Psiquiatria como especialidade médica, essa era, em grande parte, a realidade de pessoas com doenças mentais.


Hoje, conhecer essa história vai muito além de uma curiosidade sobre o passado. Em um momento em que ainda combatemos estigmas e desinformações sobre a Psiquiatria, compreendê-la cronologicamente ajuda a dimensionar seu impacto – médico, científico e profundamente humanitário.


Viagem ao passado

Em A history of psychiatry, o historiador canadense Edward Shorter mostra que, até o final do século XVIII, não havia um campo médico dedicado especificamente ao estudo das doenças mentais, tampouco um grupo de médicos que se identificasse pertencente a tal ciência.


Sem esse conhecimento, pessoas consideradas "insanas" eram frequentemente vistas como um problema moral, jurídico, de ordem pública ou até religioso – e não como pacientes que necessitavam de tratamento e cuidado. O resultado era um cenário marcado pelo isolamento, abandono e exclusão.


Na Irlanda de 1817, por exemplo, Shorter relata que pessoas acometidas por transtornos graves podiam ser mantidas em pequenos compartimentos escavados junto às residências familiares.


Cobertos para impedir fugas e sem espaço suficiente para que permanecessem em pé, esses locais confinavam os indivíduos, muitas vezes até morrer. Quando eram expulsos de casa ou das comunidades, muitos passavam a perambular sem rumo pelas estradas da Europa moderna.


E isso estava longe de ser uma exceção. Na década de 1870, um censo na comuna suíça de Fribourg encontrou mais de trinta pessoas mantidas presas em ambientes extremamente insalubres dentro das próprias casas. Em diferentes países, pessoas com transtornos mentais eram tratadas muito mais sob uma lógica de custódia do que de assistência.


Na França, essa também era a perspectiva nas instituições de acolhimento da época. Como descreve o psiquiatra português José Luís Pio Abreu em Pequena História da Psiquiatria, os chamados “hospícios de custódia” reuniam mendigos, pessoas consideradas vagabundas, “alienados” e até criminosos em julgamento. O principal intuito desses espaços era retirar das ruas aqueles considerados indesejáveis para o convívio social.


O fator Pinel

Foi nesse contexto que o médico Philippe Pinel assumiu o hospício de Bicêtre, destinado aos homens, e posteriormente o de Salpêtrière, para as mulheres.


Impressionado pelo suicídio de um amigo, passou a observar esses pacientes e classificá-los de forma sistemática, procurando distinguir os diferentes quadros de alienação mental. Seu objetivo era libertá-los da reclusão por meio de um relacionamento mais humano e adequado aos seus estados mentais, considerados patológicos. Essa foi uma de suas maiores contribuições.


Mais do que reformular práticas institucionais, Pinel ajudou a substituir uma lógica baseada na exclusão por outra fundamentada na observação médica. Gradualmente, as doenças mentais se tornavam objeto de investigação científica.


A partir desse momento, tornou-se possível distinguir diferentes manifestações das doenças mentais, investigar suas possíveis causas e buscar tratamentos específicos. O processo ganhou impulso com a chegada do Tratado Médico-Filosófico sobre a Alienação Mental, publicado originalmente em 1800 e consagrado em sua edição de 1801.


Hoje e adiante

Esses escritos de Pinel estabeleceram bases para que médicos passassem a discernir quadros clínicos, organizar classificações, investigar possíveis causas e buscar abordagens terapêuticas específicas. Pela primeira vez, manifestações diferentes de transtornos mentais eram sistematizadas sob uma ótica médica, abrindo caminho para o desenvolvimento científico da Psiquiatria.


Assim, novos conhecimentos, evidências e formas de tratamento transformaram profundamente a maneira de compreender e cuidar das doenças mentais ao longo dos séculos. A Psiquiatria segue em permanente desenvolvimento, incorporando avanços científicos que ampliam sua capacidade de diagnóstico, tratamento e reabilitação.


Conhecer essa trajetória é compreender que psiquiatras não vieram para rotular pessoas, e sim para substituir abandono por tratamento, punição por assistência, e exclusão por cuidado. Mais do que revisitar o passado, entender essa evolução é reconhecer que a Psiquiatria permanece como um dos pilares médicos para cuidar das doenças mentais. •

 
 
 

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